Invocação ao pé da montanha


Em frente ao túmulo de Frank País, na esquina onde diz “Aqui caiu Otto Parellada”, vendo as placas que registam que “neste lugar…” se juntaram os insurrectos, se reuniram os conspiradores, se imprimiram as proclamações; é dizer, em qualquer sítio de Santiago de Cuba, fiz a mesma pergunta a mim mesmo: Será a rebeldia coisa do passado? Será possível que o medo de perder o emprego ou o curso na faculdade seja mais forte que o medo de perder a vida? Será talvez mais fácil e menos arriscado pegar nas armas que expressar as nossas ideias?

Falei com jovens e velhos, homens e mulheres; protestantes, católicos e ateus; operários, intelectuais e estudantes. Não encontrei uma só pessoa que me tenha dito estar satisfeita com a sua situação actual nem com as condições em que vive o país, mas também não encontrei ninguém (na verdade, encontrei só uma) que tenha tido o repente de expressar publicamente a sua inconformidade, os seus desacordos, mesmo que fosse uma divergência mínima.

Eu, que sou de Camagüey, não me atrevo nem sequer a sugerir que as pessoas da indomável província se tenham transformado em cobardes. Penso que o que está a acontecer lá é que talvez a desinformação esteja mais disseminada, e que tantos anos a ouvir dizer que Santiago é o berço da revolução lhes tenham incutido uma espécie de culpabilidade pelo que está a acontecer.

Santiagueros, a culpa temo-la todos. Nós, os cubanos, estamos a pagar o preço da nossa inocência, mas os que têm de se arrepender são os que abusaram dela. Oxalá nunca mais seja necessário fundir uma placa de bronze para indicar onde se imolou um jovem, ou onde foi assassinado um inconformista. A nova valentia que a Pátria reclama não se desperta com os clarins exaltados da batalha, mas sim com a serena convicção de que temos uma responsabilidade cívica e a obrigação de reclamar civilizadamente os direitos que nos pertencem.

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