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Invocação ao pé da montanha


Em frente ao túmulo de Frank País, na esquina onde diz “Aqui caiu Otto Parellada”, vendo as placas que registam que “neste lugar…” se juntaram os insurrectos, se reuniram os conspiradores, se imprimiram as proclamações; é dizer, em qualquer sítio de Santiago de Cuba, fiz a mesma pergunta a mim mesmo: Será a rebeldia coisa do passado? Será possível que o medo de perder o emprego ou o curso na faculdade seja mais forte que o medo de perder a vida? Será talvez mais fácil e menos arriscado pegar nas armas que expressar as nossas ideias?

Falei com jovens e velhos, homens e mulheres; protestantes, católicos e ateus; operários, intelectuais e estudantes. Não encontrei uma só pessoa que me tenha dito estar satisfeita com a sua situação actual nem com as condições em que vive o país, mas também não encontrei ninguém (na verdade, encontrei só uma) que tenha tido o repente de expressar publicamente a sua inconformidade, os seus desacordos, mesmo que fosse uma divergência mínima.

Eu, que sou de Camagüey, não me atrevo nem sequer a sugerir que as pessoas da indomável província se tenham transformado em cobardes. Penso que o que está a acontecer lá é que talvez a desinformação esteja mais disseminada, e que tantos anos a ouvir dizer que Santiago é o berço da revolução lhes tenham incutido uma espécie de culpabilidade pelo que está a acontecer.

Santiagueros, a culpa temo-la todos. Nós, os cubanos, estamos a pagar o preço da nossa inocência, mas os que têm de se arrepender são os que abusaram dela. Oxalá nunca mais seja necessário fundir uma placa de bronze para indicar onde se imolou um jovem, ou onde foi assassinado um inconformista. A nova valentia que a Pátria reclama não se desperta com os clarins exaltados da batalha, mas sim com a serena convicção de que temos uma responsabilidade cívica e a obrigação de reclamar civilizadamente os direitos que nos pertencem.

Disso não se fala

Há já uma semana que andamos a receber muitas chamadas telefónicas com as mesmas perguntas: “Como está o ambiente em Havana?” “O que há de certo nos rumores que correm?”. Respondo-lhes que a temperatura baixou um pouco, que não tem chovido e que se comenta que vão descongelar a entrega das licenças para taxistas.

Os que indagam ficam sem perceber, imagino que o fazem para não me prejudicarem, mas não consigo entender o que querem saber, porque afinal não tenho nenhum tio doente, e quando nasci o meu avô (o que foi mambí ) já não estava entre os vivos. Sim, é verdade que se vêem mais polícias nas ruas, mas o Granma explicou que é para controlar melhor o trânsito. É falso que estejam a escassear as flores e que dê trabalho comprar rum nos mercados. Que eu saiba, não se produziram detenções massivas nem se estão a reabilitar os túneis nem os refúgios anti-bomba.

Mudanças perceptíveis não vejo nenhuma. Bem vistas as coisas, e isto é absolutamente subjectivo, o ar parece mais transparente e a terra mais leve, mas não acho que seja sobre essas temas que os meus amigos me fazem perguntas.

A velha culpa

Agora que está na moda relembrar o que ocorreu há meio século, quero desempoeirar a minha mais antiga culpa, que tem o nome de Horacio.

Horacio Otaola era o aluno mais brilhante do colégio Enrique José de Varona na cidade de Camagüey. Fizemos juntos o ensino primário até 1959. Ainda me lembro da sua impecável caneta Palmer, do seu lápis Mirado 2 sempre afiado, dos seus cadernos sempre forrados com sobriedade, da rapidez com que invariavelmente respondia em Matemática e História.

O pai do Horacio era dono de umas serralharias e muito cedo se deu conta de qual seria o rumo que tomaria o recém triunfante processo revolucionário. Ele fez alguma coisa, ou disseram que fez alguma coisa, não sei com precisão, que o fez ir parar à prisão por motivos políticos. As suas propriedades foram confiscadas e a família perdeu todo o seu sustento. Então o Horacio começou a trabalhar, com somente 13 anos, como mensageiro num mercado.

O mercado era privado, se bem me lembro era uma “Grocery”, e estava na esquina da rua San Esteban com a San Fernando, muito perto da minha casa. Todos os dias, pela manhã cedo, eu era obrigado a passar por esse sítio quando ia para a escola, e a essa hora já o Horacio lá estava para levar as compras aos clientes.

Horacio Otaola era meu amigo e a primeira pessoa por quem senti inveja. Vê-lo na sua nova situação, despojado da possibilidade de ter um futuro à medida do seu talento, fazia-me sentir mal. É muito difícil mudar a inveja pela lástima, mas isso nem era o pior. Sem que naquela altura o pudesse explicar, recusei cumprimentar aquele que tinha sido o meu colega de escola durante seis anos.

Nunca consegui encontrar, no meu sempre aberto arsenal de argumentos, uma só razão que me justifique. Arrasto esta culpa até hoje.

Perdoa-me Horacio.

E o Socialismo?

O discurso do General do Exército Raúl Castro, comemorativo dos 50 anos do triunfo da revolução, foi outro balde de água fria para aqueles que ainda lhe atribuíam um sentido pragmático e um desejo de introduzir mudanças no país.

Em apenas trinta minutos, fez uma dezena de alusões ao seu irmão Fidel, umas para o citar e outras para elogiá-lo; por onze vezes mencionou o imperialismo norte-americano e por vinte vezes fez referência a factos históricos. Em relação ao futuro, disse que os próximos cinquenta anos serão também de luta permanente e que não podemos pensar que serão mais fáceis.

O que mais chamou a atenção, na minha opinião, foi a ausência de sugestões programáticas. Por exemplo, não mencionou que este ano terá de se realizar o já muitas vezes adiado sexto congresso do Partido Comunista de Cuba; não explicou nada em relação às anunciadas mudanças estruturais, nem à existência de algum tipo de plano para aumentar a produção de alimentos ou para melhorar a desastrosa situação da habitação; também não se referiu à continuação da eliminação das proibições absurdas que continuam a existir, nem à próxima ratificação dos Pactos de Direitos Humanos assinados no ano passado; mas, sobretudo, o grande ausente foi o socialismo.

Quando o ouvi dizer que os dirigentes de amanhã não deverão esquecer nunca “que esta é a Revolução dos humildes, pelos humildes e para os humildes”, pensei que tinha ouvido mal. Mas o diário Granma encarregar-se-ia de confirmar que eu não estava a ficar surdo, pois essa foi a frase textual eleita para o título da primeira página. Para os que a tenham esquecido, esta foi uma frase histórica pronunciada por Fidel Castro a 16 de Abril de 1961 e marca o instante da declaração do carácter socialista da revolução. O que acontece é que Raúl retirou o adjectivo “socialista” de trás do substantivo revolução e, dessa maneira, retirou à expressão justamente o vocábulo que a tornou histórica: socialista.

Depois de ter feito essa pequena descoberta, voltei a ler a sua intervenção em Santiago de Cuba e descobri, cheio de perplexidade, que em todo o discurso faltam os elementos ideológicos do sistema. Por exemplo, quando se menciona Julio Antonio Mella, fundador do primeiro partido comunista, diz-se que foi “a ponte que une o pensamento martiano* e as ideias mais avançadas”. Por que é que não se diz claramente o pensamento martiano e o marxismo-leninismo? Mais à frente, define-se a revolução como “um justiceiro cataclismo social”. Ao ocorrido nos primeiros anos, logo com a superação espectacular do Programa del Moncada, chama-se aqui “a lógica evolução do processo”. Diz-se quase imediatamente que em Cuba, a história americana “tomou rumos diferentes”.

Todo o resto é metáforas. Onde se devia colocar que começou a luta de classes para eliminar a exploração do homem pelo homem, diz-se que se começou “a varrer desonras e injustiças”; que os cubanos “nos ajustamos à máxima martiana: a liberdade custa muito caro, e é necessário resignarmo-nos a viver sem ela, ou decidirmo-nos a comprá-la pelo seu preço”; que “foi uma resistência firme, alheia a fanatismos, baseada em sólidas convicções”, e que a revolução “jamais cedeu um milímetro nos seus princípios”.

A que propósito vem esta ocultação de linguagem? Por que é que Raul Castro pede aos militantes “que impeçam que destruam o Partido” e nem sequer o chama pelo seu nome completo: Partido Comunista de Cuba?

Pergunto-me se as ideias marxistas-leninistas, que segundo os estatutos do PCC regem a política do país, terão felizmente passado à clandestinidade; pergunto-me se a construção do sistema socialista deixou de ser, por fim, o propósito mais importante de revolução que acaba de cumprir cinquenta anos. Queria saber se estas omissões são produto de um esquecimento injustificado ou do deliberado propósito de se ir reciclando para outras posições mais agradáveis.

Não pergunto estas coisas porque me entristeça o abandono de uma ideologia já caducada, mas porque penso que, depois de meio século, estamos outra vez perante a incerteza de 1959, quando o povo cubano desconhecia qual era o destino a que os conduziriam os líderes do processo.

*  Referente ao escritor, político e pensador cubano José Martí.

O ano da Yoani

Apesar de ter sido em Abril de 2007 que a Yoani iniciou o seu blog Generacíon Y, o momento em que o seu nome passou do anonimato à popularidade foi o ano de 2008.  Talvez tudo tenha começado um bocadinho antes, quando, em Outubro de 2007, o correspondente da agência Reuters enviou um artigo que foi imediatamente publicado em vários jornais do mundo. Isto chamou a atenção do The Wall Street Journal que, no dia 22 de Dezembro dedicou uma página completa, com chamada de primeira página, a esta cidadã insignificante. Seguiu-se o jornal espanhol El País no dia 3 de Janeiro deste ano, com uma entrevista colocada na última página com uma frase da entrevistada a servir de título: “La vida no está en otra parte, está en otra Cuba” (“A vida não está em outro lado, está em outra Cuba”).

Durante os dias 23 e 24 de Fevereiro, quando se realizava em Cuba o processo para eleger o novo Presidente dos Conselhos de Estado e de Ministros, Havana encheu-se de repórteres dos meios de comunicação mais importantes do mundo. Como se fosse uma Meca caribenha, a maioria deles foi em peregrinação até ao 14º andar do edifício onde vive a blogger. Tiveram, literalmente, de fazer fila para conseguirem entrevistá-la. The New York Times, The Zeit, Newsweek, Washington Post, Repórteres Sem Fronteiras, a televisão alemã, a espanhola, a Al-Jazeera e muitos outros quiseram dar a conhecer aos seus diferentes públicos em que consistia este fenómeno.

No mês de Março, o portal desdecuba.com, onde estava alojado juntamente com outros o blog Generación Y, foi bloqueado pelas autoridades cubanas, e desde aí não é possível actualizar o blog. Hoje em dia, graças a outros amigos, é possível lê-lo em 12 línguas.

Em Abril, a Yoani soube que tinha ganho o prémio Ortega Y Gasset de Jornalismo Digital e, em Maio, a revista Time colocou-a entre as 100 pessoas mais influentes do mundo na categoria “Heróis e Pioneiros”. O governo cubano negou-lhe a permissão para sair do país para ir a Espanha receber o prémio que tinha ganho. Na cerimónia, a cubana brilhou pela sua ausência e outro cubano, também blogger, Ernesto Hernandéz Bustos, recebeu em seu nome o diploma. A solidariedade despoletada pela proibição foi tão gratificante como a viagem frustrada.

Um mês depois, um livro sobre a Bolívia viu a luz. O autor do prólogo era Fidel Castro e, sem mencionar directamente o seu nome, fez alusão a esta jovem que recebia “um de tantos prémios que oferece o imperialismo para mover as águas do seu moinho”. A Yoani decidiu não responder, entre outras coisas, porque desde que começou o seu trabalho elegeu a política de não responder a ataques. Então, pediu-me para ser eu a ripostar. Houve quem não entendesse a sua piada de invocar o princípio machista de que “quando um homem ofende uma mulher, deve ser o marido desta a dar a cara”; são pessoas que talvez devessem ter de passar pelo Centro Nacional del Humor para receberem terapia ou para que simplesmente lhes expliquem a piada.

Em finais de Agosto, Gorki Águila, líder de uma banda de rock, foi detido pela polícia. Sobre ele pairava uma acusação que podia valer-lhe quatro anos de prisão. Yoani, juntamente com outros amigos, foi à chamada Tribuna Anti-Imperialista José Martí – onde o famoso cantautor Pablo Milanês dava um mega concerto – para pedir, de cartazes na mão, a liberdade do rockeiro. O pequeno grupo foi despachado debaixo de pancada mas, no dia seguinte, em frente ao tribunal onde estava a ter lugar o julgamento, todos estiveram presentes e entoaram o nome de Gorki quando o viram sair livre, apenas com uma multa.

No dia 4 de Setembro a Yoani fez 33 anos, mas o presente só lhe chegaria 20 dias mais tarde quando, pela segunda vez, o governo lhe negou a autorização para sair da ilha, desta vez para ir a um festival de jornalismo em Ferrara, Itália, para o qual tinha sido convidada.

Em Novembro, a Yoani ganhou o prémio do júri no concurso Bitacoras.com e, apenas uma semana depois, soube que no concurso The BOB’s, que inclui mais de 12 mil participantes de todo o mundo, tinha recebido também o prémio na categoria de Melhor Weblog.

No início de Dezembro, um grupo de bloggers, juntamente com os colectivos da revista Convivencia e do portal Desde Cuba organizaram um encontro para a troca de conhecimentos. A polícia política, sabendo que a Yoani tinha trabalhado como ninguém no propósito de difundir a blogosfera cubana, convocou-a para lhe dizer que o encontro não se poderia realizar. Quando se recusaram a confirmar isso por escrito, ela disse-lhes que não se atreviam a fazê-lo porque eram uns cobardes.

A revista semanal do jornal El País publicou na sua edição de 30 de Novembro a selecção que esse diário fez dos 100 hispano-americanos mais notáveis do ano; a revista Foreign Policy elegeu em Dezembro os dez intelectuais mais importantes do ano e tal também o fez a prestigiosa revista mexicana Gato Pardo. Yoani Sanchéz aparece em todas essas enumerações, e é a única pessoa repetente em mais que uma lista.

Todos estes êxitos só serviram para chamar ainda mais a atenção para o blog Generación Y, que mensalmente tem uma dezena de milhões de clicks e cujos posts recebem entre três e sete mil comentários. De facto, isto converteu aquele espaço numa autêntica praça pública virtual onde milhares de pessoas vão debater os textos que a Yoani escreve e os comentários que os outros visitantes colocam.

Há uma regra não escrita que dita que a popularidade atrai inimigos. Ao longo destes meses as hostilidades têm vindo de dois extremos: o primeiro, e mais lógico, de aqueles fundamentalistas que não aceitam nem a mais pequena crítica ao governo. Chamam-lhe assalariada do império, agente da CIA ou, nos casos mais benignos, uma pessoa confusa que não sabe o mal que anda por aí fora no Mundo; no segundo extremo estão os outros fundamentalistas, aqueles que acreditam que quem pode pôr os dedos sobre um teclado de um computador tem de ser necessariamente um agente de Segurança do Estado. Entre esses fundamentalistas encontram-se alguns que conseguiram obter asilo argumentando perseguições que nunca sofreram, e que agora dizem não entender como é que é possível que a blogger não esteja presa ou não tenha ainda abandonado a ilha. Há muitos que não aceitam que lhe atribuam a ela prémios e reconhecimentos em vez de os atribuírem a outros jornalistas independentes que sofreram surras ou que cumprem longas penas. Posso assegurar que nenhum dos galardões recebidos, incluindo a menção do referido autor do prólogo, foi manipulado pela Yoani.

Felizmente, sobram os amigos. Ao contrário daqueles que a denigrem, os amigos dão a cara e dizem os seus nomes. São muitos – e disso sou uma testemunha privilegiada – os que a param na rua para lhe dizer que a lêem e a apoiam. Entre eles encontram-se algumas figuras públicas, cubanos que vivem no exterior, pessoas de aqui que a conhecem através das antenas parabólicas ou de discos que circulam gratuitamente jovens e velhos, homens e mulheres que não sabem que esta mulher é uma das pessoas mais tímidas do mundo, cegando ao extremo de se dizer, entre os seus mais íntimos, que possui o dom da invisibilidade, por evitar tanto ser o centro das atenções.

Desfruto do prazer infinito de partilhar a minha vida com a Yoani. Somos um casal desde Julho de 1993, quando ela ainda não se tinha matriculado no Instituto Pedagógico, nem sonhava em mudar de escola para acabar por ser filóloga. Temos um filho de 13 anos, um aquário com um peixinho dourado e uma cadela rafeira. Tenho o direito de dizer que ninguém a conhece como eu. Os seus piores defeitos pessoais são um segredo para os seus maiores inimigos e as suas melhores virtudes ainda não foram descobertas pelos seus mais fervorosos admiradores. Devido ao facto de ser jornalista, não faltou gente a dizer que quem realmente escreve os seus textos sou eu. Basta dar uma volta pelo meu blog (que quase ninguém visita!) para comprovar a diferença nos estilos. Mas sim, não renuncio à parte do mérito que me cabe. Porque se eu, com o meu emblemático avental de florzinhas, não lavasse a loiça, não limpasse a casa nem regasse as plantas da varanda, a Yoani não teria tempo para o seu blog. Ela é tão generosa que me deixa ler os seus trabalhos antes de os publicar para que eu tenha a ilusão que estou a revê-los.

Sem dúvida que 2008 foi o ano da Yoani. O que ninguém sabe é que o seu número da sorte é o 9.

Vinte anos de liberdade ou o verdadeiro rosto de Fantomas

Ontem, quinta-feira, fiz uma festa para celebrar os 20 anos de ser um homem livre. Foi às 10h da manhã de 18 de Dezembro de 1988 que assisti a uma reunião onde me informaram que já não poderia exercer mais como jornalista oficial em Cuba. No pelotão de fuzilamento, onde fui executado como profissional de informação, dispararam sobre mim José R. Vidal (Cheito), director do Juventud Rebelde, Lázaro Barredo, da direcção nacional da UPEC (Unión de Periodistas de Cuba – União de Jornalistas de Cuba), Juan Contino, que nessa altura era o segundo secretário do Buró Nacional da UJC (Unión de Jóvenes Comunistas – União de Jovens Comunistas) e outros colegas do diário que só levavam balas de cortesia.

Acusaram-me de negar a obra do programa revolucionário, de exaltar as contradições entre a geração jovem e a que ocupava os cargos de direcção no país, e de usar termos ambíguos que propiciavam uma leitura dupla dos meus textos; acrescentaram alguns detalhes, como por exemplo, que tinha instigado um grupo de estudantes da escola de jornalismo para que fizessem uma provocação durante um encontro que tiveram com o Comandante-chefe e, para além disso, que me reunia em minha casa com jovens a quem inculcava ideias contrárias à revolução.

Defendi-me disto tudo com unhas e dentes numa longa e meticulosa apelação enviada a Carlos Aldana, que dirigia nessa altura o aparelho ideológico do Partido. Meses depois (acho que em Agosto de 1999), fui recebido na sede do Comité Central por um funcionário de apelido Castellanos, que era o segundo de Aldana e pró-Jacinto Granda, que já se preparava para assumir a direcção do Granma. Estava desejoso por ver como poderiam eles rebater aqueles argumentos que eu tinha alinhavado com tanto empenho durante longas e esgotantes jornadas de reflexão. Para minha surpresa, o Castellanos disse-me para eu não perder tempo em defender-me das acusações recebidas, que eu não podia continuar a ser jornalista simplesmente porque o meu pensamento se afastava da linha do partido e que era tudo.

Foi dessa forma que conheci o verdadeiro rosto de Fantomas. Saí daquele lugar furioso e frustrado porque ainda não tinha compreendido que a leveza que me embargava não se devia a ter-me transformado numa pessoa insignificante, mas sim porque me tinham convertido num homem livre.

Ontem à noite brindei àqueles que me livraram para sempre do penoso fardo da simulação. Juro que não lhes guardo nenhum rancor e agradeço-lhes publicamente o imenso favor que me fizeram.

Crónica na quinta

Agradecidos e mansos os animais domésticos, em particular os nascidos em cativeiro, que são obedientes ao seu amo. Não importa que o homem que os domina seja precisamente aquele que os impede de viver no seu meio natural, o mesmo que os põe a trabalhar ou a engordar para logo a seguir os devorar; o mesmo que decide se podem ou não ter vida sexual, quando e com que membro da espécie; o que lhes põe rédeas, juntas, cebeçadas, selas, jaulas, ferraduras ou cadeias; o que os castra ou viola, que lhes corta as asas, lhes arranca os tomates e lhes grita; que lhes bate para domá-los, o que os marca com um ferro em brasa e os vende a outra pessoa; o que não permite que nenhum saia sem permissão dos limites da quinta, do jardim zoológico ou do circo, segundo qual tenha sido a sorte de cada besta. Nada disso importa, sempre e quando o amo traga a tempo o alimento ao curral e os vacine para que não morram num momento inoportuno.

Sem contar com algumas extravagantes excepções, os animais não têm direitos, não têm meios para protestar, nem uma instância onde possam fazê-lo. É aceitável que um ganso passe toda a vida com um tubo no esófago violando a sua alimentação se isso favorece a existência do paté de fígado; milhares de galinhas são condenadas a ter uma luz acesa para as fazer acreditar que a noite não existe, e isso é bom se aumenta a produção de ovos; para satisfazer a urgência de um transporte, um burro pode carregar com um peso duas ou três vezes superior ao seu; se contribui para dar esplendor ao espectáculo, um cavalo pode ser flagelado ou esporado, um touro pode ser assassinado em frente a milhares de pessoas, um tigre pode ser humilhado em público fazendo-o passar uma e outra vez pelo mesmo aro estúpido.

Os espectadores desfrutam enquanto comem distraídos as suas pipocas; aquele que recebe a carga transportada nem sequer olha para a mula; enquanto se saboreiam os ovos ao pequeno almoço, quem é que se lembra das galinhas torturadas?; no menu onde se anuncia (talvez em francês) o paté de fígado, seria de mau gosto descrever o macabro processo que o antecede. E não satisfeito com negar aos animais todos os direitos, os meios para protestar e a instância onde fazê-lo, o “amo sapiens” tem a complacente convicção de que para eles vale mais a protecção que a liberdade, e que é sobejamente suficiente levar a comida à pocilga e catar-lhes as carraças de vez em quando.

Tenho tido várias vezes o pesadelo que num país deste planeta, digamos numa ilha, as pessoas não têm o direito de se expressarem e não lhes é permitido reunirem-se, nem ultrapassar as fronteiras sem autorização. Têm um rei generoso que lhes proporciona diversos privilégios, atendendo à submissão de casa um, mas a todos por igual provê de alimentos essenciais e cuida-lhes da saúde. A desvantagem é que ninguém pode protestar. O resto do mundo inveja-os e admira o rei.

Inapto para o diálogo

A Yoani já contou no seu blog Generación Y os detalhes da diatribe que ambos tivemos que ouvir numa estação de polícia da boca de dois oficiais do Ministério do Interior. Como sou de digestão mais lenta, levei um pouco mais de tempo a comentar o assunto, mas só farei algumas interrogações sobre as palavras que mais me chamaram a atenção: “O senhor está inapto para qualquer diálogo com as autoridades cubanas”. Peço desculpa se não estou a citar exactamente como foi dito mas, como se sabe, eles não quiseram expressá-lo por escrito.

Aqui estão as minhas perguntas:

  • Estamos em vésperas de um diálogo com as autoridades?
  • Existe uma agenda para esse diálogo?
  • Os pontos dessa agenda são estabelecidos somente por quem tem o poder?
  • O Ministério do Interior tem o que é necessário para determinar quem está apto ou não para ter um diálogo com as autoridades cubanas?
  • Os oficiais do Ministério do Interior assumem que são eles a autoridade com quem se tem de dialogar?
  • Ali, onde há pessoas desqualificadas porque há um “qualificador”. Quais são os requisitos que é necessário cumprir para dialogar com as autoridades? E essas normas ou regras são secretas?
  • Quem estará apto para um diálogo que não acabe por ser um monólogo ou um coro onde todos estão perfeitamente ensaiados para dizer o mesmo?

Prazos Traiçoeiros

Lembram-se daquela pousada conhecida como “las casitas de Ayestarán”? Pelas causas que todos conhecemos, converteu-se um dia num albergue para pessoas sem casa e, por essas mesmas causas que não vamos repetir aqui, veio abaixo a sua construção. Desde meio ou final de 2006 que se planeou construir lá um grupo de casas. O prazo era 30 de Novembro de 2007. Nesse mesmo dia, há já um ano, tirei umas fotografias, uma delas com o cartaz em primeiro plano. Agora, passado outro ano mais, volto a retratar o sítio e o compromisso já não está à vista. Pelas causas que todos conhecemos, a obra ainda está inacabada.

Convite aos historiadores e “cubanólogos”

Quando alguém pretende contar a história de Cuba da forma mais breve possível, pode recorrer a uma periodização de carácter geral que se reduziria ao seguinte:

Seis mil anos (aproximadamente), em que a ilha foi habitada por aborígenes; 388 anos debaixo do sistema colonial espanhol; 4 anos de governo de intervenção norte-americano; 56 anos de República e 50 anos de revolução.

Claro que em 35 palavras, que se dizem nuns 15 segundos, é quase desrespeitoso contar a história de um país. Mas, desagrade a quem desagrade, isto é uma periodização de extrema generalização. No terminal de autocarros de Havana, por exemplo, há um mural que pretende contar toda a história em 14 metros. O seu principal defeito é que omite os aborígenes, substituindo-os por uma mata de iúca e outra de tabaco. O rosto de Fidel Castro aparece duas vezes e é a única pessoa viva ali representada.

Quero lançar aos historiadores especializados em Cuba contemporânea a seguinte provocação: fazerem uma periodização dos últimos 50 anos. Eu tentei, mas renunciei à tarefa quando tropecei na terrível dificuldade que é limitar cada uma das etapas e depois nomear esse período. Vamos supor que baptizamos os primeiros anos (de Janeiro de 59 a Abril de 61) como o momento das primeiras transformações revolucionárias (Reforma Agrária, Reforma Urbana, nacionalizações de propriedades, campanha de alfabetização, etc.). A seguir, viria uma parte que começaria com a declaração do carácter socialista e cada oscilação em direcção ao maoísmo, ao euro comunismo, à sovietização ou a procura de uma identidade diferente, e aí teria que ser tratada em separado. Outra, o tempo em que se falava da construção simultânea do socialismo e do comunismo. Uma etapa clara é a da “definitiva” introdução do país no contexto do campo socialista, cujo clímax foi entrarmos no CAME; outra, o início do período especial e, finalmente, a situação actual, que não se parece com nenhuma das anteriores.

Repito que renunciei à realização deste dificílimo trabalho, mas aviso que não renuncio a criticar quem o faça. Assim, deixo aberto o convite que se resume nesta pergunta:

Quais seriam os limites e a forma adequada de denominar os sub-períodos históricos dos últimos 50 anos da história de Cuba?

As respostas mais interessantes serão publicadas no espaço Con todos deste portal desdecuba.com, sempre que o autor o autorize.