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O marcado do tempo

Uma das fantasias recorrentes das pessoas que são muito ocupadas é que existisse um mercado onde cada um pudesse comprar um pouco de tempo. Chegar a um quiosque e dizer a alguém “Hei, sócio! Tu que não tens nada para fazer, por que é que não me vendes duas horas?”. A esse sítio iriam os mais velhos com muitíssimo dinheiro comprar aos mais jovens alguns anos. Haveria uma fila à parte para os condenados à morte pela justiça, outra muito comprida para os desenganados pelos médicos, e um departamento, guardado por muitos guarda-costas, com uma oferta especial de tempo para os políticos que não tenham cumprido as suas promessas.

Eu, que tenho boa memória para essas coisas, recordo-me que me prometeram um futuro luminoso. Asseguraram-me, no meio de uma praça que partilhei com quase um milhão de pessoas, que a riqueza seria obtida por meio da consciência e que não havia força no mundo capaz de impedir esse propósito. É verdade que não me deram uma data certa para isso, tenho de admitir, mas também é certo que ninguém desmentiu os cronistas do triunfalismo, os poetas da utopia que cantavam ao deslumbre que aí viria. “Somos um povo que conhece o nome do futuro”, diziam os jograis; negávamos o pão e o sal aos incrédulos e gastámos a nossa juventude, os tempos de ouro da nossa juventude, numa quimera sem sentido.

Agora, que perdemos a esperança e a paciência, o tempo tornou-se caríssimo e eles delapidaram todo o capital com que o podiam comprar.

Surpresas na outra margem

É por demais conhecida a história, quase uma lenda, de uma família que, depois de ter estado vários dias a remar no estreito da Florida, ao chegar à costa deram gritos emocionados pela liberdade e contra a ditadura; no final, não tinham chegado a Miami, mas sim a Varadero.

É como o caso de Colombo, que navegou meses angustiantes com a obsessão de desembarcar na Índia, para depois acabar por descobrir o Novo Mundo. E muitos exemplos mais, pessoas que saem de suas casas para irem ao seu casamento e acabam por encontrar a morte, que compram roupas de menina e nasce-lhes um varão, que investem tudo para que o filho seja boxeur, mas sai-lhes um rapaz bailarino de ballet – excelente bailarino!

Nas suas penúltimas reflexões, de 14 de Novembro*, o ex-presidente cubano Fidel Castro, ao referir-se a alguns governos que declararam apoiar Cuba para facilitar a transição, lamenta que “depois de vidas oferendadas e de tanto sacrifício defendendo a soberania e a justiça, não se pode oferecer a Cuba na outra margem senão o capitalismo”.

A metáfora de “a outra margem” implica, neste caso, uma alusão a esse sítio que se encontra no final do caminho. Isso leva-me a recordar as vidas oferendadas e o enorme sacrifício de todos os que lutaram para derrubar a ditadura de Batista. Depois de ansiar durante tanto tempo as liberdades políticas e o pleno gozo dos direitos dos cidadãos, não se podia oferecer a Cuba na “outra margem” uma nova ditadura.

Do ponto de vista do autor da mencionada reflexão, a soberania e a justiça são património exclusivo do socialismo; talvez fale da nossa própria soberania, a dos anos em que Cuba estava no CAME (Conselho de Ajuda Mútua Económica) e alguns ministros cubanos tinham um alter ego do Gosplan soviético, com o qual despachavam as decisões mais importantes; falará, suponho eu, da nossa própria justiça, atestada de julgamentos sumaríssimos, de processos contra a perigosidade do pré delito, de condenações baseadas mais na presunção que na evidência.

Deveria ser o povo cubano a ter a oportunidade de decidir em que sistema deseja viver no futuro: o socialismo, o capitalismo ou outro que pudéssemos inventar. Mas, lamentavelmente, há uma cláusula na Constituição da República que nega a possibilidade de escolher, porque só se reconhece o direito de aceitar o socialismo. Isso foi, não o que nos oferendaram, mas o que nos impuseram. A esta margem no final do caminho.

*Reflexões do companheiro Fidel: A reunião de Washington
/Granma/ 15 de Novembro de 2008 pág.2

Livros maltratados

Não gosto de efemérides, mas fascinam-me as casualidades. E foi assim que, à meia-noite de sexta-feira, quando já era quase dia 15 de Novembro, um livro caiu da estante, aberto na página 14, onde se lia a mesma data do dia que estava a começar, mas do ano 1968, “Año del Guerrillero Heróico” (Ano do Guerrilheiro Heróico).

O dado temporal encerrava a declaração da União de Escritores e Artistas de Cuba, que afirmava contrários à ideologia da Revolução os livros que nesse ano tinham ganho o prémio no concurso literário da UNEAC: a peça de teatro Los siete contra Tebas (Os sete contra Tebas) de Antón Arrufat e o conjunto de poemas Fuera del Juego (Fora de Jogo), de Heberto Padilla.

Naquela altura, eu estava a estudar jornalismo na Universidade de Havana e ainda tenho frescas as memórias das discussões. A história já é mais que conhecida e este não é o espaço para recriá-la. Só queria partilhar com os leitores a impressão que me causou ver o desengonçado volume de Fuera del Juego a cair, quase sobre os meus pés, para me recordar que devo dizer a verdade, pelo menos a minha verdade, mesmo que me rasguem a página querida ou me mandem pedras à porta.

Com o golpe de uma pluma

Em bom espanhol, dizemos “de um plumazo” para nos referirmos à rapidez com que se toma uma decisão que deve ser confirmada por uma assinatura. Quando traduzimos para inglês, a frase seria “with the stroke of a pena” e, se regressarmos de forma esquemática e literal ao castelhano, ficamos com o título deste post “com o golpe de uma pena”, que é a via pela qual a União Americana de Liberdades Civis exige que o próximo presidente norte-americano encerre para sempre a infame prisão que esse país tem na base militar situada na baía de Guantánamo.

Os meus escrúpulos anti totalitários, alimentados pelo compreensível preconceito de que padece uma pessoa depois de sofrer uma ditadura de meio século, fazem com que disparem os meus alarmes ante esta petição. Assusta-me que alguém tenha tanto poder, inclusivamente para fazer i bem. Não sabem os senhores os plumazos que temos tido nestas latitudes e, ainda mais, os “telefonazos” e os “tribunazos”. Com o gesto de uma mão, saída da janela de um jipe soviético de quatro portas, arrasaram-se culturas, destituíram-se ministros e embaixadores, ordenou-se a construção de uma barragem, o cancelamento de um evento, o início de uma guerra, o envio de médicos para outros países, a censura de um livro, a abertura de muitas prisões… e o restante que não sabemos.

Mas às vezes o tempo aperta e temos de deixar para trás certos preconceitos. As instalações carcerárias deveriam estar permanentemente debaixo da observação dos órgãos competentes de justiça e não fora das fronteiras, isentas de controlo. O encerramento desta prisão é exigido por aqueles que vêem afectado o prestígio dos Estados Unidos e pelos que se preocupam sinceramente por qualquer atropelo que se cometa, com a independência dos que são atropelados e, desde logo, por nós também, que somos os verdadeiros donos da ilha, de toda a ilha.

Quando o Obama tiver a pena na mão (nem sequer tem de ser no primeiro dia no escritório oval), era bom que fosse para libertar o seu país da pesada carga desta ignomínia, ou para fazer justiça àqueles a quem tenham sido roubados os seus direitos; que alguém lhe mostre o mapa onde aparece Guantánamo e, de seguida, lhe diga que os cidadãos norte americanos não podem visitar o resto da ilha, que não é apenas a parte mais bonita, mas também a mais interessante; que alguém lhe explique que neste largo Caimão no meio do mar do Caribe há milhões de pessoas (dezenas de milhar, se se quiser ser moderado) que respiraram de alívio ao saberem que ele era o eleito. Pessoas que acreditam firmemente que ele tem uma oportunidade única e possivelmente irrepetível, não de desferir um “plumazo” para resolver os nossos problemas, mas de, com a suavidade de que é capaz uma pena, enviar uma mensagem. Fazer, mesmo assim, um gesto com a mão.

A dinâmica do espaço

Uma das exigências mais imperativas que reclamam aqueles que têm algo para expressar é a de contar com um espaço onde possam difundir o que têm a dizer aos demais. Esse espaço pode circunscrever-se a uma tribuna, a um cenário, a uma galeria, a uma página ou a algum tempo diante das câmaras de televisão ou dos microfones da rádio.

Ah, se eu tivesse um espaço!

Mas o que costuma acontecer é que, quando se obtém um espaço, ele só é conseguido mediante a condição de não se dizer exactamente aquilo que queríamos expressar. Então começa a funcionar um mecanismo que nos impulsiona a cuidar do espaço conseguido, a não arriscá-lo para não o perder. Inclusivamente, a cuidá-lo para que não caia em mãos piores.

É claro que a primeira coisa a fazer é ganhar o espaço. Conheço um grupo de música rock que nunca encontra um teatro onde possa actuar, porque desde o princípio alertam para a eventualidade de, a qualquer momento, poderem baixar as calças em frente ao público ou dizer palavrões ao microfone. Também está claro que alguém que queira preservar o seu posto de trabalho não vai assumir a responsabilidade de lhes oferecer um espaço. Conheço um trovador que faz canções muito críticas sobre a situação cubana, mas quando esteve em directo em frente das câmaras e dos microfones na Tribuna Anti Imperialista, só cantou alguma coisa contra a guerra do Iraque e a favor da luta justa do povo palestiniano.

Tenho muitos amigos que trabalham como jornalistas em jornais nacionais. Sei como pensam e tudo o que os incomoda. Às vezes, encontro-me com um que me perguntou em voz baixa se não me apercebi do adjectivo atrevido que ele elegeu no seu último comentário para se referir a uma determinada situação. Digo-lhe que não li e então ele conta-me, como quem narra uma proeza, que tinha conseguido fazer passar a palavra “insuficiente” para qualificar o resultado da última colheita de batatas. Ele acredita que fez um uso temerário do espaço ao qual lhe dão permissão. Não é que ele seja uma pessoa cobarde, mas há apenas alguns meses viu um colega seu ser despedido sem mais nem menos.

Uma vez que se conta com o espaço, começa a ter-se em conta o sentido da oportunidade. Não é a mesma coisa ser o comentador do Noticiário Nacional da televisão ou ser o entrevistado num programa que se transmite num horário de pouca audiência numa emissora de rádio de um município do interior do país. Também não é o mesmo tomar à força, com uma pistola na mão, a Rádio Reloj ou ter a oportunidade de usar o microfone porque um bom amigo ou um parente a quem não queremos prejudicar nos deu essa oportunidade.

Recentemente, a artista plástica Sandra Ceballos teve a brilhante ideia de inaugurar uma exposição com o provocador título de “curadores, go home” (curadores, vão para casa), cujo propósito essencial era precisamente abrir de par em par as portas do seu espaço aglutinador aos que dificilmente seriam aceites pelos académicos curadores de arte.

Ah, se eu tivesse um espaço! E ali estava, aberto e democrático como o mar, a sala da casa particular da Sandra.

Mas as instituições oficiais do Ministério da Cultura, especialmente o Conselho Nacional das Artes Plásticas, reagiram como reagem os reaccionários. Levantou-se uma onda de indignação institucional e, argumentando que para a inauguração estavam convidadas pessoas politicamente incorrectas, avisaram os possíveis participantes de que ir àquela mostra seria tomado como um acto de clara desobediência.

Dóceis e solícitos, cometedores do pecado original, alguns artistas apressaram-se (o dedo acusador, as roupas rasgadas) a desqualificar a heresia.

A dona do espaço – no seu completo direito – decidiu adiar a exposição e, finalmente decidiu abri-la sem inauguração, o que implicou que o grupo de rock, aquele que nunca encontrou um espaço, não actuasse novamente. As obras mais provocadoras foram retiradas “para não queimar o espaço da Sandra”, e não aconteceu mais nada.

Uma prancha é um espaço que se usa para nos lançarmos para a piscina. Um espaço que se consegue para um determinado propósito não se pode conservar em troca da renúncia de um objectivo: uma vez em cima da prancha, só nos resta saltar para a água.